Sob ameaça
Sob ameaça
o oceano está a perder as suas raízes
Pradarias ameaçadas: o que os números nos dizem
As pradarias marinhas estão entre os ecossistemas mais ameaçados do planeta. Desde 1879, o mundo já perdeu quase um terço de todas as pradarias que alguma vez existiram. Um habitat que demorou milénios a formar-se, a desaparecer à vista de todos e sem que a maioria das pessoas soubesse sequer que existia.
Dois campos de futebol por hora, perdidos para sempre
No início do século XXI, o mundo perdia pradarias marinhas à velocidade de dois campos de futebol por hora. Já tínhamos perdido 30% de toda a área que alguma vez existiu. A boa notícia: esta tendência está a mudar, graças a projetos de conservação e restauro.
O que ameaça as nossas pradarias?
As pradarias marinhas portuguesas estão a desaparecer a um ritmo alarmante. As ameaças são várias - algumas visíveis, outras silenciosas. Conhecê-las é o primeiro passo para as travar.
Ameaças
Âncoras: cicatrizes no fundo do mar
Quando uma âncora arrasta pelo fundo, arranca plantas e deixa cicatrizes que demoram décadas a sarar. O problema agrava-se com o fundeio desordenado - oficial e ilegal. Os nossos estudos confirmam que a ancoragem é uma das principais causas de impacto nas pradarias da Ria Formosa, onde faltam estruturas de amarração ecológicas.
Hélices: lavrar o fundo sem o ver
Em águas pouco profundas, as hélices dos barcos escavam o sedimento como um arado, destruindo plantas, raízes e rizomas. As marcas que deixam são profundas e duradouras. Na Ria Formosa, os rastos desta ação são visíveis em várias zonas de navegação intensa.
Redes fantasma: a pesca que nunca para
As redes de pesca perdidas ou abandonadas no fundo do mar continuam a capturar e a matar - peixes, crustáceos, aves marinhas. Para além disso, arrastam pelo fundo e danificam fisicamente as pradarias. Uma ameaça invisível, mas com consequências muito reais.
Caulerpa prolifera: um invasor silencioso
Ausente durante 60 anos, esta alga verde foi redescoberta na Ria Formosa em 2011. Forma tapetes densos que competem com as ervas marinhas nativas por espaço, luz e nutrientes - e expande-se sobretudo em zonas já degradadas. O projeto detetou a sua presença em 9 das 27 pradarias subtidais da Ria Formosa.
Poluição: quando o excesso sufoca a vida
As pradarias sofrem uma dupla pressão da poluição. Por um lado, o excesso de nutrientes de fertilizantes, esgotos e aquacultura provoca a proliferação de algas que turva a água e asfixia as ervas marinhas. Por outro, plásticos e resíduos acumulam-se no fundo, bloqueando a luz, sufocando as raízes e introduzindo microplásticos na cadeia alimentar.
Viveiros no fundo: quando a pesca sufoca as pradarias
Viveiros de bivalves, armadilhas e outras estruturas de pesca colocadas diretamente sobre as pradarias bloqueiam a luz e esmagam fisicamente as plantas. O peso e a sombra destas estruturas impedem o crescimento das ervas marinhas, e a sua instalação repetida no mesmo local pode destruir pradarias inteiras de forma gradual e silenciosa.
Clima: o multiplicador de todas as ameaças
O aquecimento da água, a subida do nível do mar e a maior frequência de tempestades e ondas de calor agem como um amplificador de todas as outras ameaças. A Zostera noltei, espécie intertidal, é particularmente vulnerável: se o nível do mar subir sem espaço para migrar para zonas mais interiores, perde o seu habitat.
Cimento e erosão: quando a costa muda de forma
Portos, marinas, esporões e dragagens alteram correntes e padrões de sedimentação. As pradarias podem ser soterradas por sedimentos em excesso, ou expostas e arrancadas quando faltam. Ambas as situações são letais, e os efeitos propagam-se muito além da zona de construção.
Conhecer é o primeiro passo para proteger
As ameaças são reais, mas não são inevitáveis. Cada âncora que pousa numa pradaria é uma escolha. Cada descarga de poluição é uma consequência de decisões humanas. E decisões humanas podem mudar. Conhecer o que ameaça estes habitats é o primeiro passo para agir - e há muito que já está a ser feito.
